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Z

(2018) . Alejandro Ahmed.

 

 
 Z é uma criação em dança com direção e performance de Alejandro
Ahmed. Uma obra músico-coreográfica desenvolvida na imbricação entre
corpo, composição generativa e coreografia. Em Z a co-implicação entre o
som e o mover propõe a construção de um espaço que se constitui como
um ecossistema. Dança e música são sobrepostas e moduladas no corpo.

Z propõe o som como um acionamento sinestésico de movimento. O corpo se retroalimenta da interdependência com o ambiente que constitui e em que é constituído. Uma peça formulada como labirinto melódico, cinético e ritual guiado por uma guitarra - ao mesmo passo instrumento, objeto, corpo estendido, signo -, que evoca voz, respiração, forma e palavra sem memória como uma incorporação de alteridade.


Duração: 60 min 

Classificação Indicativa: livre

FICHA TÉCNICA:


Criação, direção e performance: Alejandro Ahmed
Direção compartilhada e ensaios: Mariana Romagnani
Iluminação, Direção de montagem e Interlocução para som: Hedra
Rockenbach
Produção e interlocução para figurino: Karin Serafin
Agradecimentos:
Tom Monteiro, Theo Gomes, Dogo, Malu Rabelo, Marcos Klann, Gabi
Gonçalves, Marcos Morgado, Andreia Druck, JUSC - Jurerê Sport Center,
Grupo Cena11 Cia. De Dança, Bruno Bez.

 

SOBRE A OBRA:

 

Z é uma investigação que começou no final de 2014, no contexto
do convite Itaú Rumos Legado. Esta pesquisa foi atravessada por
diversos desvios que expandiram seus fundamentos e objetivos.
Depois de 6 fraturas consecutivas, entre novembro de 2014
e fevereiro de 2017( olécrano, talus, medial lateral, calcáneo,
escápula, vértebra L1 ), sua performatividade é forjada entre
fragilidade, resiliência, composição generativa, destino genético,
osteogenesis imperfeita e transdução sonoro-cinética.
Eu, enquanto performer e criador, me coloco frente a guitarra
para evocar o que desconheço em mim, que como ponto cego da
minha consciência é uma invenção da singularidade que eu possa
ser.
 

Em Z uma guitarra é o objeto que centraliza o trânsito entre
civilização e natureza. Através dela se expandem em congruências
diversas: eletricidade, música, som, ficção, madeira, plástico
e metal. A desfuncionalização deste objeto é acionada pela
inabilidade do performer de manipular o instrumento na sua
condição tradicional de existência. Assim, a guitarra é a unidade
que desvia e reorganiza o corpo para encontrar caminhos que
tornem viva a ação do som como criação de espaço. Dança e
música são sobrepostas e moduladas no corpo, expandindo as
conexões deste com as materialidades simbólicas e funcionais da
guitarra enquanto objeto. Colidindo uma informação dada (formas
tradicionais de utilizar a guitarra) com uma informação labiríntica
( vetores de controle de peso e tensões músculo esqueléticas) a
experiência instaura um novo habilitar-se. O corpo revela, através
da dança, as escolhas transitórias para poder percorrer esses
caminhos no tempo e torná-los presença. Presença como atuação
na qual o tempo é reconstruído sensivelmente no corpo do
espectador. Propriedades assimétricas e interdependentes fazem
a relação entre guitarra, corpo, som, dança, movimento, espaço,
música, luz e tempo um ecossistema. Uma constante construção
relacional que perfaz uma conduta performativa e define o fazer
coreográfico.

Rider técnico:

Senha: ahmed.z

Z POR RUI FILHO - Antro Positivo

Há mais aproximações entre o som e o corpo do que lidamos no cotidiano. Ao experimentar executar 4’33 em uma sala perfeitamente isolada ao som, John Cage descobriu não haver silêncio pleno ao homem, pois escutara os sons mínimos produzidos por sua circulação sanguínea e batimentos cardíacos. A composição era nada mais do que levantar a tampa do piano e não tocá-lo no tempo descrito, até finalmente fechá-la encerrando o concerto. Foi ali que descobriu o que verdadeiramente havia composto: as minúcias sonoras que compunham o silêncio como o temos. Desde então, a música passou a ser também sobre os ruídos que a cercam, dos rangidos das poltronas às respirações. Muitos são os exemplos existentes que recorreram ao corpo ou descobriram nele o som enquanto composição. Todavia, John Cage estabeleceu paradigmas mais profundos ao revelar ser o corpo também materialidade sonora apenas por existir. Nas décadas que se seguiram, o próprio som passou a ser investigado materialidade física por cientistas, cognitivistas e artistas. Ora tratada como escultórica, ora como pictórica, a matéria do som percorreu espetáculos de muitas maneiras e qualidade. Outro exemplo intrigante é como o também americano Scott Gibbons interfere molecularmente no som de suas composições, como em suas parcerias com Romeo Castellucci, determinando à materialidade do som capacidade de interferência física no espectador e na maneira de assimilá-la. Na intersecção entre o corpo-som e o som-matéria poucos são os espetáculos que investigam o vão que determina ao som e corpo habitarem ambos os contextos simultaneamente. É preciso que o performer compreenda sua qualidade física não apenas como gesto, e sim o gesto como ampliação da sonoridade interna do corpo, por conseguinte sua representação. Sendo o som do corpo atuante e contaminável é necessário ainda que o performer encontre os artifícios para reinventar o próprio gesto, afim de que não seja mera ilustração rítmica. Alejandro Ahmed inclui feito um intermeio ao interno e externo do próprio corpo uma guitarra, para, a partir (mas não só) de suas qualidades sonoras e vibracionais instituir uma ritualização de como o gesto pode ser anterior ao discursivo, portanto às ilustrações. Em Z, corpo e som se formalizam perspectivas representacionais não só de uma dança ou movimento, e sim da construção simbólica da imaterialidade que lhes permitirão, quando compreendidas, serem o que são. A materialidade do som é antes disparadora à existência do som codificado; a presença do corpo é antes a insistência da existência prévia de ser alguém. Um corpo que revela o som como alguém. Um som que revela o alguém como corpo. Por isso interessa tanto na intercomunicação entre os dois exatamente o alguém, pois é este, ao se valer sujeito a ambos, que lhes infere qualidade poética. Por menos ilustrativa que seja, tanto só pode ocorrer dado ao instante sua condição narrativa. Ou melhor de narrativação: capacidade de construir estados de narrativas e não mais de narrá-las, como seria próprio da narração. Em Z, Alejandro conduz pelo corpo e sua ritualização sonora os espectador pelo seu desdobrar dos gestos em possibilidades narrativas. São narrativas particulares, subjetivas, e mesmo assim concretas a cada um. Por isso é também dança. Por valer-se do deslocamento no espaço, tanto de seu corpo quanto do som e luz, e principalmente por exigir do outro que igualmente se desloque nas diversas qualidades desses deslocamentos. Ahmed ouve o corpo e materializa o som para construir deslocamentos narrativos cuja ritualidade configura novas dimensionalidades ao ritmo, tempo e presença. Nada mais próprio à dança do que isso. Z é principalmente, e para além de tanto, uma experiência arrebatadora de incontrolável transformação e afirmação sobre o existir. Sendo Z a última letra, talvez possamos pensar, por fim, existirmos novos e inomináveis, existirmos enquanto experiências, agora que o alfabeto acabou.
 

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